"Há interesse do Estado em número de mortes pelo coronavírus", afirma estudo do pesquisador prudentino Alexandre Bertoncello

O professor universitário e pesquisador Alexandre Godinho Bertoncello, ph.D. em Economia, foi entrevistado pelo jornalista Wagner Bueno na manhã desta segunda-feira (18) no Programa Bom Dia Cidade, da Rádio Vale FM de Presidente Epitácio.

O prudentino publicou uma importante pesquisa científica no final do mês de abril, na revista Colloquium Socialis, da Unoeste de Presidente Prudente, intitulada “Políticas Públicas Eficientes para o Novo Coronavírus no Mundo”.

No estudo, o professor comparou dados de registros de mortes no Estado de São Paulo, contidos no Portal da Transparência, no período de janeiro a abril de 2019 e janeiro a abril de 2020. De acordo com Bertoncello, os dados apurados apontam uma queda em relação aos óbitos em 2019.

No período de referência de 2019, foram registradas pelo Cartório de Registro Civil 95.147 mortes por causas respiratórias (sistema mais atacado pelo novo coronavírus), enquanto que no mesmo período de 2020, os números foram 93.615, ou seja, uma queda de 1.532 óbitos, comparando os períodos e a mesma causa mortis.

O professor afirma que o protocolo no Estado de São Paulo determina que, havendo no laudo médico suspeita de infecção pelo novo coronavírus, o óbito deve ser registrado como Covid-19, confirmada ou não a causa da morte, já que os exames para confirmação demoram alguns dias para concluir o resultado.

Para Bertoncello, o impacto das políticas públicas de combate ao coronavírus no Brasil são maiores na economia. Ele afirma que em dois meses de quarentena, destruímos o potencial de riqueza no país em 50% e a pior queda no PIB (produto interno bruto) desde 1909. Os estudos na área econômica mostram que a cada quinze dias de trabalho parado, representa menos 1% no PIB.

Para realizar o estudo, o professor pesquisou 205 nações do mundo, separando depois dois grupos de seis países – um grupo que esteve em quarentena e outro que não praticou o isolamento. A conclusão é de que nos países onde aconteceu a quarentena, o número de infectados não caiu, pelo contrário, continuou subindo na mesma linha. Países como o Japão, que não parou e ao invés de deixar as pessoas trancadas em casa investiu em orientação e medidas de proteção e combate ao vírus, não registrou o mesmo impacto negativo na economia de países que pararam suas atividades e forçaram a quarentena de pessoas sadias.

“Eu acredito que a quarentena é ineficiente, da forma como está sendo feita, foge da lógica forçar pessoas saudáveis a ficar em casa. É lógico combater a doença, mas não é lógico prejudicar a todos, doentes ou não. É importante testar a população, cuidar das pessoas que tem maior vulnerabilidade e controlar vírus. Me parece muito mais uma questão política do que sanitária ou econômica”, diz o professor.

Bertoncello diz que países desenvolvidos, como a Alemanha, voltaram atrás e afirmaram que a quarentena foi um grande erro. No país foi realizado um estudo, mostrando a ineficácia do isolamento e ações gradativas para a retomada das atividades. Ele afirma ainda que o Brasil deveria seguir os métodos e protocolos de reabertura gradual e que há no país um terror imposto por uma ampla mídia, que ganha muito dinheiro com o medo. “O medo controla as pessoas. Há uma falsa dicotomia: vida x economia. Não existe essa divisão. Quando uma empresa morre, morre também os sonhos do empreendedor e do empregado, todos são prejudicados”.

“Hoje há publicidade das mortes. Nada mudou em números do ano passado para cá. Não estamos subestimando a doença, o vírus existe, a doença existe, precisamos tomar cuidado mas não existe razão lógica para o que está acontecendo”, afirmou.

O pesquisador acredita que há uma vantagem do Estado em segurar a quarentena e divulgar um número grande de óbitos. “Me parece claro o pacote que provavelmente será aprovado no Estado nos próximos dias. O número de mortos será proporcional a quantidade de dinheiro que o Estado vai receber. Estão fazendo palanque em cima dos óbitos, quanto mais mortos tiver, mais dinheiro receberá. A política no Brasil é estranha”.

Questionando a falsa lógica da quarentena, o professor compara a atividade de um supermercado, considerado como essencial, a um comércio comum. “Porque um supermercado pode trabalhar e um comércio não? A gente deveria olhar os fatos. Quem frequenta o supermercado ou quem trabalha neste, não será infectado pelo corona e quem trabalha em um outro tipo de comércio seria? Qual a lógica disso?”.

Para ele, o mais lógico é adotar os modelos dos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul. “Não podemos dar a mesma receita de bolo para todas as cidades”, comparou, concordando com o que outros políticos e especialistas já disseram, é necessário olhar para cada local de forma individual e isso deveria ficar a cargo dos governantes municipais, já que são estes que conhecem a realidade de suas cidades.

No Brasil, os estados que foram mais flexíveis no isolamento são os que tiveram menor taxa de contaminação e proporcionalmente, menor número de mortes pela Covid-19.

O professor conclui que é possível tirar importantes lições deste momento de pandemia. “A primeira grande lição é que a educação financeira no Brasil é muito ruim. Aqui acaba o salário antes de terminar o mês. Precisamos mudar o comportamento financeiro e aprender a ter uma reserva de emergência. Outro ponto é que cada minuto em casa significa uma possibilidade muito grande de aumento no desemprego”. Dados recentes da Confederação Nacional da Indústria apontou que mais de 77% da população está mais preocupada com impactos econômicos do que com os efeitos na saúde.

A pesquisa científica do professor Bertoncello pode ser acessada através do link http://journal.unoeste.br/index.php/cs/article/view/3483.

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