‘Situação é delicada, bem grave’, diz administradora da Santa Casa de Venceslau sobre ocupação de leitos na região

Nesta semana, a administradora hospitalar da Santa Casa de Presidente Venceslau, Susierléia Bonifácio, atualizou o quadro enfrentado pelo hospital venceslauense durante a pandemia. Além de revelar parte das preocupações dos funcionários do local, ressaltou que os índices de ocupação de leitos na área do Departamento Regional de Saúde (DRS) de Presidente Prudente são preocupantes.

Com registro de taxa de ocupação próxima a 100% nesta semana em quase todos os hospitais da região, a administradora hospitalar informou que recebe estes dados em todas as manhãs. “A situação é bem delicada, bem grave, o cenário é bem triste. Estamos aí com taxa de ocupação de praticamente 100% em quase todos os hospitais da região. O HR, Santa Casa de Prudente, Yamada, Nossa Senhora das Graças, Presidente Venceslau, Dracena, tudo com 100% de taxa de ocupação. A nossa região como um todo já está com 90% de taxa de ocupação em todos os leitos de UTI”, revelou durante entrevista concedida ao Jornal Integração Regional na última quarta-feira (24).

Em contato constante com equipes de outros hospitais da região, a administradora explicou que a regulamentação de leitos por meio do Sistema Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde) faz com que a Santa Casa local e outras unidades do Oeste Paulista possam receber pacientes de qualquer lugar de São Paulo. “A fala é que hoje não existe mais leitos de Venceslau, da região do extremo Oeste. Hoje existe leito do estado de São Paulo. Então nós podemos receber pacientes de qualquer região do estado, seja ela qual for. Tanto que nós estávamos até ontem (terça) com uma paciente de Jaú. Temos um sistema chamado Sistema Cross que regulamenta os leitos, então hoje os nossos dez leitos de UTI aparecem lá disponíveis para isso. O médico regulador analisa, através desse sistema, aonde que tem leito vazio e ele encaminha esse paciente”, explanou.

“É uma situação muito delicada, a gente fica muito preocupado. Mesmo que a gente fale 'ah, mas como vão ficar os pacientes de Venceslau'? A gente precisa entender que acima de tudo tem que prevalecer a vida, não importa de onde ela seja”, continuou.

A preocupação da equipe não se reserva apenas ao atendimento da demanda, se estendendo ainda ao campo financeiro. A falta de recursos faz com que o cenário durante a pandemia fique ainda mais alarmante. "A gente fica se perguntando até quando os hospitais vão aguentar, porque é muito fácil falar 'vou mandar paciente', mas como fica a parte financeira? Quem banca? O recurso que chega é muito insuficiente. Falo que não cobre 60% da despesa e com os outros 40% a gente tem que se virar. Tem que fazer campanha, continuar trabalhando, pedir ajuda para a população. Infelizmente é assim que acontece", desabafou.

Os índices de ocupação revelados por Susierléia Bonifácio são referentes às ocupações de leitos de UTI covid-19. A equipe do hospital venceslauense se mostra preocupada com o cenário, uma vez que o atendimento a pacientes com outras patologias também deve ser oferecido. "Estava conversando com a diretora da DRS (de Presidente Prudente) preocupada com isso, porque nós estamos com oito leitos ocupados (na quarta) e eu perguntei pra ela se em muitas vezes eu posso, esses dois leitos que estão à parte, se eu realmente tiver todos eles totalmente preservados, isolados e fora do covid-19, de uma maneira que a gente possa atender todas as patologias, no sentido de que, se chega uma pessoa para mim infartada, um AVC, um acidente de carro, isso nos preocupa muito. Essa madrugada (terça para quarta) nós tivemos problema, então a gente fica bastante angustiado, porque as coisas não pararam de chegar", contou.

Em reunião realizada na manhã de quarta-feira no hospital venceslauense, as dificuldades do enfrentamento à pandemia foram abordadas. "Estamos chegando em um momento, e falamos hoje cedo (quarta) em uma reunião, que a gente vai começar realmente a decidir quem vai para o ventilador e quem não vai. A situação é bem complicada, muito triste. Quem está dentro do hospital, o profissional de saúde e a administração, temos outra visão da visão de quem está fora. Precisamos que a população entenda a responsabilidade dela neste enfrentamento, porque ela é o que realmente vai fazer com que tudo isso passe", alertou.

Hoje, os dez leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) disponíveis na unidade de saúde venceslauense são preparados para receber pacientes com covid-19. Dos dez, oito estavam ocupados na última quarta-feira (24). Com a ocupação de oito leitos, os dois restantes são reservados para atendimento ao Pronto-Socorro e para a Enfermaria, setor do hospital que também recebe pacientes com covid-19. “Pode ser que um desses pacientes acabe precisando de um leito de UTI, então a gente sempre se preocupa em dar esse respaldo para algum paciente da enfermaria. Costumamos trabalhar assim para que a gente não deixe de atender ninguém”, informou Susierléia.

O vírus B.1.1.7, variante britânica do coronavírus, foi um dos assuntos abordados pela administradora na entrevista. Segundo ela, até quarta-feira (24) a região não havia registrado sinal desta variante.

Se direcionando ao público venceslauense e de toda a região, Susierléia falou sobre a necessidade de se adotar as medidas de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus, incluindo o isolamento social, uso de máscaras e higienização constante. "Não é fácil, a pessoa está dentro de casa há tanto tempo, cansada, estressada, não aguenta mais ficar dentro de casa, não aguenta mais ficar sem conversar com a família, mas é preciso. Falo que da mesma maneira que estamos aqui no hospital trabalhando por eles, incansavelmente, muitas vezes até tarde da noite, funcionário fazendo turno atrás de turno porque muitas vezes falta funcionário, a gente precisa que eles tenham esse pouquinho de esforço para que eles entendam que eles fazem parte do motivo dessa onda. Se eles não tiverem a consciência de ficarem em casa, de se precaverem. Se não tem condições de ficar em casa, vá trabalhar, mas tome os cuidados, se cuide da maneira certa, porque está bem pior", pediu.

Por fim, a administradora aproveitou a oportunidade para reforçar a importância das campanhas desenvolvidas pelo hospital. Trata-se de uma das formas de arrecadação que a unidade encontra para poder manter o atendimento à população. "Às vezes estamos muito cansados até, fazemos campanhas, vendemos melancia, pizza, e a gente percebe que muitas vezes as pessoas já estão resistentes de ajudar a Santa Casa. A gente precisa da ajuda deles. Ajude, pois não vai ajudar a manter um serviço, vai ajudar a manter uma vida", frisou.

“Muitas vezes a pessoa não consegue ajudar com muita coisa, mas uma rifa que compra de cinco reais, dois reais, dez reais, já faz uma grande diferença. Já nos ajuda a comprar o medicamento, em torno de R$ 50 mil por semana, isso só de medicação. Toda semana é um desafio para nós, a gente fica falando 'meu Deus, será que a gente consegue comprar remédio neste mês, nessa semana?’ Na semana passada eu consegui comprar R$ 26 mil. Tivemos que cortar um monte de coisas. Então a gente precisa que a população continue acreditando no serviço, continue nos ajudando”, completou.

Fonte: Eduardo Maduro/Integração Regional

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